segunda-feira, abril 04, 2011

É você?

Você acha que existe algum controle? Na sua vida? Acha mesmo? Você controlou o fato básico de você ter nascido? Sabe exatamente, em detalhes, e escolheu o momento e a maneira precisa de como você vai morrer? Você controla seu coração que bate dia e noite? Controla os pensamentos fulminantes que te atacam as moralidades tão bem estabelecidas? Você acredita que tem o controle de todos os seus músculos, da direção de seus olhares? Você controla os outros ao seu redor ou precisa fazer uma chantagem? Foi você quem decidiu sua raça? Você dorme quando quer, acorda quando bem entende? Acredita mesmo que tudo o que tem aí dentro é seu única e exclusivamente? Acredita que domina com propriedade suas opiniões, suas convicções? Você controla o tempo, senhor do Tempo, não caiu aquela chuva? Controla os sinais de trânsito, as notas promissórias, o almoço de cada dia? Aquele chute em direção ao gol, a bola relou na trave, foi calculado? É possível você acreditar que você controla a sua conta corrente, mesmo em tempos de inflação? Acha mesmo que controla o que seus filhos veem na televisão, quais suas companhias? Você controla suas decisões, tem plena consciência delas? Você controla a direção do seu carro ou aquilo foi tentativa de suicídio? Você se joga da janela e não morre mas estraçalha suas pernas, seu tronco, seus movimentos e joga a responsabilidade nas costas de deus? Você reza e domina com rigor as contas do rosário que vai passando dedo a dedo e escorregando das suas mãos enrugadas? Escolheu o lugar onde nasceu, sua língua, usos e costumes? Você controla o país que você governa com suas multidões inabaláveis e comissões julgadoras? A gravidade ainda é maior ou seu foguete chega nas estrelas, pequeno grande astronauta? Você escolhe quem levar pra cama, ou a cama rejeita os mais ousados? Você controla quantos cigarros fuma por dia? Controla o momento o dia do parto, o espermatozoide da concepção? Quem nos condenou a epidemia de malária, a febre amarela, foi você?

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segunda-feira, dezembro 31, 2007

feliz ano novo aos senhores

ÚLTIMO POST DO ANO Sustentabilidade, último dia do ano e Larissa.

Lari:

ah e sabe de uma coisa?eu gosto de estuda...hehehehhe...
Miguel:
Eu sei.
Por isso vai ser acadêmica. XD
Lari:
eba!meu sonho de consumo...vive com os miseros reais doados pela universidade aos academicos - afinal, cerveja de boteco nem eh taum cara assim!
Miguel:
Hahahahahahahahahahahahaha!
Miguel:
Nem 51. Nem Orloff...
Miguel:
É, dá pra viver bem...
Miguel:
Compra Camel, e vamulá! XD
Lari:
pois eh...os meus combustiveis - alem de renovaveis- saum baratinhus...
Miguel:
Viu? Ainda ajuda o meio ambiente. XD
Lari:
hahahahahahhahahahahhahahahah
Lari:
ai ai ... ... ...
Miguel:
Fora que desidrata, logo, sobra mais água no planeta.
Miguel:
É perfeito. Você é uma máquina de sustentabilidade, Lari!
Lari:
viu? ecologicamente correta... vou fazer uma tese sobre isso!
Miguel:
Novo nick: "Em 2008 eu prefiro ser uma máquina de sustentabilidade ambulante."
Lari:
eu axo q a gnt deveria apresentar esse novo projeto de vida a grupos nao governamentais...
Lari:
ou formar o nosso proprio...
Miguel:
Né!? Ia ser lindo!!
Lari:
nos somos lindos xuxu!
Miguel:
Isso é só mais uma prova... XD
Lari:
ai ai ... chegamos a essa conclusao no ultimo dia do ano!
Miguel:
Já percebeu que a gente sempre chega a essa conclusão? XD
Lari:
jah...pq ela eh meio obvia!

[Um post dedicado à unica pessoa tão perfeita quanto eu.]

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sábado, novembro 10, 2007

tradução primeira tradução

e. e. cummings Pela primeira vez traduzi alguma coisa de alguém.

i like my body when it is with your
body. It is so quite a new thing.
Muscles better and nerves more.
i like your body. i like what it does,
i like its hows. i like to feel the spine
of your body and its bones, and the trembling
-firm-smoothness and which i will
again and again and again
kiss, i like kissing this and that of you,
i like, slowly stroking the, shocking fuzz
of your electric fur, and what-is-it comes
over parting flesh . . . . And eyes big love-crumbs,

and possibly i like the thrill

of under me you quite so new
(e. e. cummings)

-Minha livre tradução:

eu gosto meu corpo quando está com seu
corpo. É tão como uma coisa nova.
Muscula melhor, nerveia mais.
eu gosto do seu corpo. eu gosto do que ele faz,
eu gosto dos seus jeitos. eu gosto de sentir o dorso
do seu corpo e seus ossos, e a instável
-fixa-maciez e a qual eu vou
de novo e de novo e de novo
beijar, eu gosto de beijar seu isso e aquilo,
eu gosto, lentamente afago a, chocante penugem
de sua elétrica derme, e o o-que-é-isso sur-
ge da carne partida.... E grandes fatias-d'amor,

e possivelmente eu gosto do febril

de debaixo de mim você assim tão juvenil

[E quero opiniões, obrigado.]

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quarta-feira, setembro 26, 2007

cidade sem horizonte

SÃO PAULO Efiência. Disso você só se apercebe quando sai de São Paulo, a cidade mais eficiente do Brasil. Onde as coisas - pro bem ou pro mal - acontecem. E tão diversa, tão densa, tão paradoxal, cada um tem a sua São Paulo. Pràlguns, a Paulicéia Desvairada, pra outros, a Rita Lee - mais completa tradução? - e pra esses, céu, pra aqueles, inferno. São Paulo da garoa - onde? -, de Piratininga... Cada um tem o seu ponto de vista pra essa cidade, cujo melhor adjetivo que se lhe pode agregar é eficiente.

São Paulo não tem horizonte - eu disse sem rumo? Sobe aquela ladeira lá, sobe. Sobe até o fim. E vai se deparar com um paredão de prédios, ou um amontoado de árvores: o que quer que seja. Não vai ver o horizonte.

Se você mora em São Paulo, tenta fazer diferente. Se ver de fora da cidade, sair da massa. Veja-la inteira. Não, não digo subir no Banespa, ou no Pico do Jaraguá e ficar vendo a cidade. Não é isso, não. Distancie-se. Fique alguns instantes vendo a cidade pelo ângulo de dentro, de fora. Mas não muito!, senão vai se perder...

A eficiência não é pra qualquer um. É pra quem aguenta viver errante, sem resposta, sem horizonte. Um preço caro por uma cidade nem tão bonita. Nada, ou pouco de maravilhosa. Mas interessantíssima e única e igual a todas as outras.

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quinta-feira, setembro 13, 2007

freud, sem complexo

FREUD Édipo mata o pai e casa com a mãe. Tudo isso regado na melhor concepção trágica grega, com todos os pingos nos is. Aí vem o senhor Freud e institui o Complexo de Édipo. Recheado de complexidade psicanalítica, Egos e Ids. Alguns pesquisadores dizem e insistem que o incesto não aconteceu na "realidade", ou na primordial essência, do mito. Explico. Há quem diga que a tragédia original de Édipo se resume ao assassinato do pai, e que o casamento com Jocasta seria legítimo - já que esta não seria na realidade sua mãe. Sofócles teria apenas incrementado a história, dando-lhe um tom mais trágico. Essa teoria desbanca Freud. Verdade? O que muita gente confude é, não!, Édipo não sofria do Complexo homônimo.

A tragédia de Édipo - escrita por Sófocles, necessário salientar - é usada por Freud como uma mera alegoria, referência metafórica para o seu estudo. O Complexo de Édipo não é uma leitura freudiano-psicanalítica da tragédia, massim um fenômeno real(?), cuja essência é evidentemente análoga ao enredo peça. Édipo-personagem não sofre de Édipo-complexo. Isso seria incompatível tanto com o mundo grego e como com o trauma freudiano. São apenas duas coisas independentes que compartilham o mesmo nome, por associação do Freud - que pode ter sido infeliz.

O negócio é ler. As duas. E tirar as conclusões. O que eu escrevi aqui é óbvio, mas - pasme - há quem confunda.

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segunda-feira, setembro 03, 2007

epische Geschichte

LYGIA FAGUNDES TELLES Eu nem precisava voltar lá. Já tinha ido, já tinha me divertido, já tinha palhaçado com os amigos, já tinha comprado todos os livros que me apeteciam (ou o dinheiro já se tinha esgotato?), enfim. Mas ao descobrir que dali alguns dias Lygia Fagundes Telles estaria falando do Invenção e Memória naquela Bienal do Livro, não me contive e voltei.

Cheguei atrasado, mas consegui arranjar um lugar bom. O auditório não tava tão cheio, e também não era grande. Sentada, numa poltrona azul, estava ela lá, com o microfone na mão. Falou do Largo São Franscisco, de Mário de Andrade, Natal na Barca, escrever, a escola romântica, Hilda Hilst?, sonhar... Tudo ali, pra algumas fileiras a frente.

Ao final da palestra, foi dada a largada, e os - muitos - interessados se aglomeraram em volta da poltrona, pra conseguir um autógrafo, uma troca de palavras com a escritora. Entre os desesperados, estava eu, segurando meu livrinho (comprado dois anos antes do acontecido por coincidência na Bienal do Livro anterior), torcendo. A "fila" desregrada foi andando, fui me aproximando, as pessoas foram saindo.

Eis que os seguranças - como a uma Madonna? - fizeram um círculo em torno dela, num gesto que aqui certamente significa algo como "se mandem seu bando de fanático, que ela vai embora". Bateu um desespero. Argumentei com um segurança "Moço, eu vim aqui só pra falar com ela, por favor. Não quero muito, só um aperto de mão!". Ele virou com toda a displicência que é característica de todo segurança, e disse "não posso fazer nada". Ah, mas podia, o feladaputa.

O desespero foi mais forte, me esgueirei por entre os seguranças e cutuquei o ombro dela, "Dona Lygia?", ela se vira e eu completo "só um aperto de mão?". E ela me estende a mão com uma fisionomia séria ainda que absolutamente confortante, agora não tinha segurança que me impedisse. Eu falei alguma coisa que agora não consigo me lembrar o quê. Algo como "boa parte da minha estante é dedicada à senhora, se puder..." E entreguei meu livro. Ela abriu, e
- Seu nome?
- Miguel.
- Miguel! Adoro esse nome! Direto!, sem delongas, esses nomes longos que as pessoas põem...

Assinou, pôs lá, "Para Miguel, lembrança de Lygia Fagundes Telles". Saí de lá com três coisas. Um autógrafo da escritora que mais considero. A melhor definição do meu próprio nome. E um mote: viva e destrua barreiras, a começar pelas humanas.

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domingo, agosto 12, 2007

mitifico

IMAGENS 14 de julho de 1789, França, queda da Bastilha. A Bastilha, um prédio de 3 andares com 4 únicos prisioneiros (sendo 2 deles nobres). 7 de setembro de 1822, Brasil, declaração da Independência. O Ipiranga, uns gatos pingados com o príncipe regente montado num burro (possivelmente com problemas intestinais).

Eu gosto de mitos. Gosto de acreditar que d. Pedro I estava num árabe puro sangue, pomposo ao tirar a espada da bainha e fazer as margens plácidas do Ipiranga ouvir o grito da Independência. Gosto não, acredito. Assim como os revolucionários franceses fizeram da Bastilha um marco incrível, os brasileiros fizeram do Pedro I um herói romântico.

Mas aí vem a República, que transforma d. João VI em um balofo covarde, Pedro I em um mulherengo e Pedro II no Banana corriquiero. E em compensação transforma Tiradentes - sim, um moço quase esquecido de Minas - em mártir Republicano com cara de Cristo. Isso que a Inconfidência foi incompetente e era, além de restrita, regional, cuja influência se limitava exclusivamente a Minas.

Che, herói, Fidel, ditador. Hitler, nazista, Getúlio, pai dos pobres.

Crescei e mitificai-vos, poderiam ter nos dito. Eu gosto de acreditar no grito do Ipiranga megalomaníaco. Na grande Bastilha tomada à força. No Tiradentes covardemente mutilado. Se sou crédulo, besta, fantasiador?, que me importa?

Não gostou do final do livro?, então crie o final você mesmo. Decepcionou-se com a não-existência do Papai Noel?, acredite nele, sim, que pra você ele existe. Isso não é se deixar enganar, não!, é antes de mais nada sonhar e imaginar, que é o pouco que nos veio de fábrica.

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domingo, março 25, 2007

relacionamento a distância

NIETZSCHE Nunca li. Eu nunca soube.

Não tenho paciência com Nietzsche, ou é ele que não tem paciência comigo?

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quarta-feira, março 14, 2007

e datas e números e códigos

É absolutamente imperioso que se cultive o mal humor na sociedade contemporânea.

Cactos que o digam.

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quinta-feira, fevereiro 15, 2007

livin' la vida loca

"Eu senti a morte."
"Eu pensei que estava morto."
"Eu vi a morte passar pelos meus olhos."
De todas as frases acima, só a última é possível.

História de pescador. Não confie. O resto é lorota.

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segunda-feira, fevereiro 12, 2007

parnaso-candango

BRASÍLIA Relacionando cidades a movimentos literários, São Paulo seria a modernista, o Rio a naturalista, Ouro Preto (Vila Rica) a clássica, Salvador barroca. Brasília seria parnasiana. Parnasiana pela dureza do verso, uma construção a la João Cabral. Parnasiana pela clareza e pela lucidez. Parnasiana pelas linhas retas, pela retidão semântica. Parnasiana pela falta de esquinas, pela falta de enroscos. Parnasiana pela pluralidade material. Parnasiana pela razão.

Se Brasília fosse uma poesia, não seria concreta como normalmente se pensaria. Seria parnasiana. O concreto é sua matéria prima... sua essência é parnasiana. Evita-se poetizar Brasília, filmá-la, divulgá-la. Brasília foi uma grande revolução baseada na complexa simplicidade. Clarisse Lispector a definiu como "o fracasso do mais espetacular sucesso do mundo". Como também pode-se definir a escola parnasiana. O resto é poeira candanga.

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quarta-feira, fevereiro 07, 2007

pensamento disperso, parte I

HUMANIDADES Se eu amo a humanidade? Sim, amo. Se não amasse não gritaria por ela. Ao contrário de muita gente, que prefere achar que o mundo é uma bosta e todos os homens deveria explodir com suas próprias bombas atômicas, eu gosto de pensar que, embora o homem possa ser mal e até ingênuo por demais, não vamos nos destruir com toda essa facilidade. Afinal é próprio do ser humano uma dualidade, e falar disso chega a ser um clichê. O homem quer destruir o homem. Mas ele não vai destruir a si mesmo.

Ainda assim eu amo a humanidade. E chego a pensar, até envergonhadamente, que sou um otimista. Me envergonho porque, afinal de contas, um pessimista não passa de um otimista com experiência.

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