segunda-feira, outubro 04, 2010

um sonho de romance 2

(...)

A concretização do sonho o transformou em objeto e, portanto, passível de análise. O romance enquanto forma concreta nasceu junto com a sua crítica científica, seus paralelismos e convergências. A ciência se apossou do romance no instante em que ele se instituiu por sua finitude enquanto objeto. A crítica científica engessou o romance a partir da sua própria formação e cada tipo de ciência preocupou-se em defini-lo e remoldá-lo segundo seus próprios preceitos.

À medida que a ciência se desenvolvia, mais ciências eram criadas, mais objetos passaram a ser observados, novas possibilidades e métodos de análise e interpretação apareceram. Dessa forma, o romance foi tomando inúmeras formas diferentes, concorrentes ou divergentes entre si, recebendo um impacto transformador inevitável a cada vez que se estabelecia. A cada nova forma romancesca, nascia consigo uma nova crítica, que por sua vez já modificava tanto os romances já existentes como os romances por nascer. O romance e a crítica se tornaram autodestrutivos, porque nunca conseguiam se sobrepor um ao outro e nunca conseguiram parar de se transformar mutuamente.

O sonho, por sua vez, não sofreu menos. Todo esse universo limiar do sonho, da loucura, do inconsciente, do fora, a parcela indizível do que é-sem-ser foi apossado pelas ciências no instante em que se instituiu como objeto finito. A ciência institui objetos e os faz falar segundo seus moldes, segundo suas línguas. O sonho tornou-se objeto da ciência e isso o transformou da mesma maneira que o romance foi transformado pela crítica. O sonhou tornou-se matéria de discussão e passou a contar uma história que fosse palpável, transmissível; em suma, transformou-se em narrativa.

O sonho (bem como o romance) que primeiro era a experiência e tornou-se mito, agora se via completamente desmistificado. A sua construção, seu esqueleto, sua forma não permitia mais a magia. O romance também não. Os grãos de encanto que ainda existiam foram atirados ao vento e tudo o que sobrou foi a toalha trançada, com toda a sua estrutura desmistificada e explicável.

O sonho tomou consciência de si mesmo, se cientificou, tornou-se objeto de seu próprio universo: o romance internalizou-se num nível tão denso que talvez não nos seja possível alcançar. A fragmentação das ciências e a multiplicação ininterrupta dos objetos, essa máxima condensação de todos os focos, cientificaram o próprio sonho, tornando-o objeto de si mesmo e impedindo, assim, a concretude do romance. A ficção está esgotada.

A conscientização dos alicerces de sua estrutura impregnam o romance com uma objetividade que o impede de ser científico, revolucionário, psicológico, metafísico, aventuresco, autobiográfico, religioso, metalinguístico, moralista etc., porque a desmistificação do sonho pôs em xeque a criação ficcional. É o sepultamento da expressão da narrativa onírica, visto que ela não significa mais nada num mundo de objetividades e explicações. O mito se desdobrou em si mesmo encerrando a tragédia do romance, cujo prólogo era a contradição bovaryana. Madame Bovary não é mais uma personagem, mas o romance-tese-sonho que se envenenou a si mesmo.

(...continua...)

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