a máquina, o macaco e a relatividade
PÓS-MODERNIDADE "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus." (JOÃ 1,1) Mas não vamos nos ater ao princípio, mas ao meio. De repende eis que surge um homem que é filho de deus e que é o primeiro homem. E o filho de deus prega o amor e a compaixão. E esse homem, depois de morto-ressucito, destrói um império. Depois surgem uns outros homens que dizem que a Terra é redonda, que a Terra gira em torno do Sol, que a Terra é o centro do universo. Vem um outro homem e diz que a Terra não é o centro do universo. Aí os homens descobrem a máquina e a máquina vira deus e a máquina é o centro do homem. E depois vem um homem que diz que o homem não vem de deus, massim do macaco. E então o macaco e a máquina são deus. O último homem que resta, que é gênio - não é homem -, diz que, então, tudo é relativo. As árvores, então, se movem. O Sol, então, gira em torno da Terra. O tempo, então, muda quando há movimento. Então o gênio disse: "Faça-se a relatividade!" E a relatividade foi feita. E o gênio viu que a relatividade era boa. Então a máquina, o macaco e a relatividade eram deus. No final era a máquina, o macaco e a relatividade. E a máquina, o macaco e a relatividade estavam junto do homem. E a máquina, o macaco e a relatividade eram o homem.
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Mas e o agora? A gente debocha falando da "pós-contemporaneidade", "da sociedade pós-moderna". Mas e quando paramos pra tentar entender e dar significado a esses termos, a que conclusão chegamos? Normalmente à clássica "definir é limitar" ou à aceitação de todas as doutrinas, ou ao, não menos clássico, "o ponto de vista define o objeto". Independente de qual das três, todas fogem das respostas.
Se aquilo que é "moderno" é, toscamente, a reunião das produções humanas pós segunda revolução industrial, que abarca especialmente o final do século XVIII até a década de 70 do século passado, o depois-disso é mistério, é névoa, é virtual.
O pós-moderno, como não poderia deixar de ser, é o que vem depois do moderno. E o moderno tem três pilares fundamentais: a máquina, o macaco e a relatividade. E todos eles têm a ciência como base fundamental. A máquina responde o "para onde vamos", o macaco responde o "de onde viemos", a relatividade responde o "o que somos". E, assim, num passe de mágica, o homem tem a explicação técnico-científica perfeita para todas as questões impostas pelo racionalismo que rege a sociedade ocidental desde o Renascimento.
(Ambiciosa, a afirmação.)
Nietzsche matou deus, coitado. Para tentar devolver a mágica inexplicável e redentora do mundo - detonada pelo avanço científico e pelo fim do rito e dos dogmas religiosos -, a modernidade tenta dar à arte um tom divino, dionisíaco (exemplificado perfeitamente pelo primitivismo de Picasso, de Schönberg, de Oswald de Andrade e de Brecht). A pós-modernindade, na contramão desse movimento, está saturada de racionalidade e tenta pelo fim do conceito de "distância" redimensionar os conceitos de espaço e tempo.
A distância acabou e, junto com ela, foi embora a racionalidade. Pensar o mundo não faz mais sentido se o mundo já foi anteriormente pensado e se toda essa bagagem está prêt-à-porter na rapidez de um clique. A compreensão do tempo também se transformou. Deixou de ser um tempo cronológico, retilíneo, para ser um tempo simultâneo. E essas duas transformações básicas convergem para outras duas novidades: a aceitação da futilidade e da embriaguez.
Por "aceitação da futilidade" entenda a desvontade que paira sobre os pós-modernos. A aceitação da futilidade é não dar mais valor àquilo que é racional, que é compreensível. É aceitar as coisas como são, com uma passividade surda. Um exemplo disso é a relutância que as pessoas têm de entender as coisas. Ninguém mais quer entender. Ninguém mais quer questionar. As coisas, para os pós-modernos, estão bem como estão. Apatia.
A "aceitação da embriaguez" é a massificação estrondosa do uso de narcóticos. O uso de substâncias entorpecentes nunca foi tão disseminado e, pasme, tão aceito.
Não está aqui declarado o fim da ciência. Nem o fim da religião. Mas a saturação da racionalidade e suas consequências mais diretas. Pelo menos aquelas que pude observar. Em mim e nos outros.
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