Terça-feira, Novembro 17, 2009

a máquina, o macaco e a relatividade

[ADVERTÊNCIA: Não tenho certeza de nenhuma das palavras escritas aqui. Quero críticas, xingamentos. Talvez nunca tenha escrito um texto tão sem sentido. Ou com tanto sentido. Talvez nunca tenha escrito um texto tão ambicioso. Ou tão ingênuo. Talvez nunca tenha entendido tão bem o resto do mundo. Ou eu mesmo. Talvez nunca tenha dito tanto. Ou tão pouco.]

PÓS-MODERNIDADE "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus." (JOÃ 1,1) Mas não vamos nos ater ao princípio, mas ao meio. De repende eis que surge um homem que é filho de deus e que é o primeiro homem. E o filho de deus prega o amor e a compaixão. E esse homem, depois de morto-ressucito, destrói um império. Depois surgem uns outros homens que dizem que a Terra é redonda, que a Terra gira em torno do Sol, que a Terra é o centro do universo. Vem um outro homem e diz que a Terra não é o centro do universo. Aí os homens descobrem a máquina e a máquina vira deus e a máquina é o centro do homem. E depois vem um homem que diz que o homem não vem de deus, massim do macaco. E então o macaco e a máquina são deus. O último homem que resta, que é gênio - não é homem -, diz que, então, tudo é relativo. As árvores, então, se movem. O Sol, então, gira em torno da Terra. O tempo, então, muda quando há movimento. Então o gênio disse: "Faça-se a relatividade!" E a relatividade foi feita. E o gênio viu que a relatividade era boa. Então a máquina, o macaco e a relatividade eram deus. No final era a máquina, o macaco e a relatividade. E a máquina, o macaco e a relatividade estavam junto do homem. E a máquina, o macaco e a relatividade eram o homem.

***

Mas e o agora? A gente debocha falando da "pós-contemporaneidade", "da sociedade pós-moderna". Mas e quando paramos pra tentar entender e dar significado a esses termos, a que conclusão chegamos? Normalmente à clássica "definir é limitar" ou à aceitação de todas as doutrinas, ou ao, não menos clássico, "o ponto de vista define o objeto". Independente de qual das três, todas fogem das respostas.

Se aquilo que é "moderno" é, toscamente, a reunião das produções humanas pós segunda revolução industrial, que abarca especialmente o final do século XVIII até a década de 70 do século passado, o depois-disso é mistério, é névoa, é virtual.

O pós-moderno, como não poderia deixar de ser, é o que vem depois do moderno. E o moderno tem três pilares fundamentais: a máquina, o macaco e a relatividade. E todos eles têm a ciência como base fundamental. A máquina responde o "para onde vamos", o macaco responde o "de onde viemos", a relatividade responde o "o que somos". E, assim, num passe de mágica, o homem tem a explicação técnico-científica perfeita para todas as questões impostas pelo racionalismo que rege a sociedade ocidental desde o Renascimento.

(Ambiciosa, a afirmação.)

Nietzsche matou deus, coitado. Para tentar devolver a mágica inexplicável e redentora do mundo - detonada pelo avanço científico e pelo fim do rito e dos dogmas religiosos -, a modernidade tenta dar à arte um tom divino, dionisíaco (exemplificado perfeitamente pelo primitivismo de Picasso, de Schönberg, de Oswald de Andrade e de Brecht). A pós-modernindade, na contramão desse movimento, está saturada de racionalidade e tenta pelo fim do conceito de "distância" redimensionar os conceitos de espaço e tempo.

A distância acabou e, junto com ela, foi embora a racionalidade. Pensar o mundo não faz mais sentido se o mundo já foi anteriormente pensado e se toda essa bagagem está prêt-à-porter na rapidez de um clique. A compreensão do tempo também se transformou. Deixou de ser um tempo cronológico, retilíneo, para ser um tempo simultâneo. E essas duas transformações básicas convergem para outras duas novidades: a aceitação da futilidade e da embriaguez.

Por "aceitação da futilidade" entenda a desvontade que paira sobre os pós-modernos. A aceitação da futilidade é não dar mais valor àquilo que é racional, que é compreensível. É aceitar as coisas como são, com uma passividade surda. Um exemplo disso é a relutância que as pessoas têm de entender as coisas. Ninguém mais quer entender. Ninguém mais quer questionar. As coisas, para os pós-modernos, estão bem como estão. Apatia.

A "aceitação da embriaguez" é a massificação estrondosa do uso de narcóticos. O uso de substâncias entorpecentes nunca foi tão disseminado e, pasme, tão aceito.

Não está aqui declarado o fim da ciência. Nem o fim da religião. Mas a saturação da racionalidade e suas consequências mais diretas. Pelo menos aquelas que pude observar. Em mim e nos outros.

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Domingo, Agosto 30, 2009

a esparrela do Ctrl+C, Ctrl+V

IMPRENSA VIRTUAL É o tempo da popularização da informação midiática e jornalística. As pessoas ultimamente querem estar sempre atualizadas sobre seus assuntos prediletos, esporte, política, moda, comportamento, saúde, economia... Todos eles - na sua página inicial da internet - alinhados prática e dinamicamente numa coluna à esquerda do monitor ou resguardados de forma estratégica e de fácil acesso num agregador pessoal de feeds.

Essa busca pela informação não sofre falta de oferta, pelo contrário: ela é muito maior que a procura, mesmo no Brasil, cujo índice de usuários com internet à mão ainda é baixo. Isso barateia a informação e amplifica seu acesso mais do que antigamente, quando se tinha que comprar jornais e revistas para acessar o jornalismo periódico impresso. Por um lado isso é muito saudável, porque aumenta a concorrência entre sites, que tentam proporcionar sempre uma busca pela melhor qualidade da informação o mais rápido possível. Por outro é negativo, porque os sites de notícia acabam caindo na tentadora esparrela do Ctrl+C, Ctrl+V, em que um site vai copiando a informação do outro sucessivamente, até que todos estejam com as mesmas coisas publicadas, muitas vezes pouco mudando o texto de um site para outro.

A informação, no meio virtual, significa mais "6 conjunto de atividades que têm por objetivo a coleta, o tratamento e a difusão de notícias junto ao público" do que "7 conjunto de conhecimentos reunidos sobre determinado assunto" (Dicionário HOUAISS). Mas essa premissa de que o que interessa é a mera informação jogada sintética e cruamente aos olhos do público leitor é bastante duvidosa. Muita gente ainda paga (não por falta de opção, mas porque quer pagar) para ter acesso a notícias mais elaboradas e reportagens mais bem feitas. Um bom exemplo disso é o jornal norte-americano "Wall Streel Journal", que "nunca abriu o site e tem hoje uma base de assinantes online de pouco mais de um milhão de pessoas que pagam US$5,00 por mês."[1] Dessa forma, o jornal preserva as suas notícia e disponiliza para o leitor colunas, espaço de opinião selecionada, entrevistas e reportagens, tudo isso com um viés mais crítico de que carece os sites de notícias na internet.

É claro que na internet há espaços como fóruns, grupos de discussão, de comentários etc. para que se opine sobre determinado assunto. Mas esses espaços, ou melhor, o público que neles escreve, sofrem da anomalia do "tudo publicável". O Ctrl+C, Ctrl+V da reportagem dá carta branca para que qualquer um escreva qualquer asneira ali, tornando o espaço de discussão uma ferramenta bastante útil nas mãos de pessoas com opiniões um tanto quanto esquizofrênicas.

Sou incondicional defensor da frase-clichê de Voltaire: "N
ão concordo com o que dizes, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo." Sou igualmente desejoso de uma imprensa livre, mas não uma imprensa livre que traz a informação através da cópia descabida. A falta de senso crítico dos veículos da informação virtual (imprensa muitas vezes chamada de "formadora de opinião") leva as pessoas a ter opiniões que não são ponderadas: fala-se qualquer asneira. Sou defensor da imprensa crítica, tanto aquela que é a favor de um governo, quando à que é contra. O importante é a informação ser de qualidade e crítica. Não simplesmente jogada e sintética. O Ctrl+C, Ctrl+V pode ser prático, mas definitivamente não acaba com a necessidade duma imprensa mais categórica.

Fontes:
[1: Caderno Mais! da Folha de S. Paulo, dia 30 de agosto de 2009, p. 8.]

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Domingo, Agosto 23, 2009

o buraco é muito mais em cima

LEI DE ANISTIA Neste sábado, o ministro da Justiça, Tarso Genro, disse que os torturadores da época da ditadura militar deveriam ser levados aos tribunais, durante a comemoração de 30 anos da aprovação da Lei de Anistia no Brasil. Segundo o ministro, julgar esses casos seria fundamental para que os direitos humanos sejam internalizados pela sociedade e pelas instituições.

A afirmação sucitou uma polêmica muito interessante. A lei não concede "anistia a todos quantos (...) cometeram crimes políticos ou conexo com estes"? Não estariam, portanto, os torturadores dentro desse grupo? Tortura é crime, mas esses crimes que aconteceram por motivo político no período entre 02 de setembro de 1961 e 15 de agosto de 1979 não estão anistiados?

Sou leigo no assunto, portanto minha concepção de "crime político" é um tanto quanto vasta e cabe pouco ao caso. Mas acho que essa discussão, num âmbito mais teórico, nos traz à tona a definição de crime político. Se pensarmos que o crime político é aquele que o civil comete contra o Estado, podemos considerar também políticos os crimes que o Estado comete contra os civis. Essa interpretação coloca os torturadores (que agiam inegavelmente a serviço do Estado) dentro da lista de anistiados.

Entretanto, me parece um tanto quanto descabido que o Estado cometa crimes. Em tese o Estado (que tem como obrigação a criação, aplicação e fiscalização de leis) não deveria entrar em contradição e agir contra a lei que ele mesmo cria, aplica e fiscaliza. Mas estamos tratando de questões que envolvem um Estado autoritário que é passado: sua concepção e estrutura devem ser abolidas. Então devemos encarar essas questões segundo as necessidades sociais de agora. Essa contradição em que entrou o Estado brasileiro na época da ditadura não pode passar impune. Essa mentalidade de que o Estado pode cometer crimes contra os civis é inaceitável hoje em dia, principalmente tendo em vista a internalização dos direitos humanos, para citar as palavras do ministro. É claro que o Estado brasileiro na época militar agia às escondidas. Mas a população estava ciente do que acontecia e aceitava. E eis mais uma contradição em que entrou a ditadura: agia ilegalmente com complacência da sociedade.

Mas é igualmente necessário que essas investigações propostas pelo ministro ocorram levando-se em consideração o momento político por que passava o país. Os torturadores, imagino eu talvez ingenuamente, agiam a mando de pessoas que ocupavam cargos superiores. Quem tem que ser majoritariamente punido, não são os torturadores em si, mas as pessoas que mandavam torturar e aquelas que sabiam da tortura e nada faziam para evitá-la. Punir apenas os torturadores criará uma falsa imagem de que o problema está resolvido, sendo que o buraco é muito mais embaixo (ou, hierarquicamente, em cima). Não punir essas pessoas perpetuará a ideia da tortura, e isso, além de perigoso, é absolutamente condenável.


Toda a forma de violência por parte do Estado tem que ser combatida. Não desatar os nós malignos do passado significa deixar largada a semente (que me parece muito germinável em solo brasileiro) do autoritarismo, sempre bem regada pela passiva e engasgada inércia da brava gente brasileira.

Fontes:
[Uol Política, dia 22 de agosto de 2009.]
[Lei de Anistia, dia 28 de agosto de 1979.]

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Sábado, Agosto 15, 2009

à venda na internet mais próxima de você

INGRESSOS DE SHOWS Um assunto que me deixou desconsertado durante o decorrer dessa semana foi o altíssimo preço de ingressos para shows em São Paulo e - por que não dizer? - no Brasil e a forma imbecil com que eles são postos à venda. O causo foi o seguinte: eu queria ir ao show do The Killers, cujos ingressos começaram a ser vendidos nessa segunda-feira. Naturalmente, como estudante desprovido de recursos financeiros que sou, optei por pagar o mínimo possível, isto é, não pagar a malograda taxa de conveniência da empresa responsável pela venda de ingresso e gozar do desconto de 50% dado aos estudantes. Tudo isso, claro, sendo resignado à pior visão possível do show: assisti-lo da pista.

Antes de falar dos meios de compra, vamos aos preços. Pagar R$100 a meia entrada da pista (ou seja, o preço mínimo) num ingresso para um show de uma única banda (com pista VIP) num local que comporta 30 mil pessoas (vide show do Radiohead) é quase uma extorção. Ter em vista que essa mesma banda fará shows em outros países da América Latina (Chile e Argentina) por preços mínimos bastante inferiores (R$60 e R$80 respectivamente) é ainda mais revoltante. Nos EUA, pode-se assistir à banda por R$80 em média, ao passo que, no Brasil, essa média sobe para R$120 reais. Isso sem mencionar que a diferença do câmbio monetário é apenas ilustrativa. Em outras palavras, dispor de R$80 no Brasil é muito diferente de dispor de US$40 nos EUA.

Vale lembrar que essa discrepância de custo é válida tamém para outros eventos. O show da Madonna anopassado, cujo custo médio, no Brasil, era no entorno de R$298 e nos EUA de US$155, chegou ao cúmulo de cobrar R$600 pela pista VIP. Para o show do Bob Dylan, o expectador brasileiro teve de desembolsar de 250 a R$900(!!!).

Já li que o exorbitante preço dos shows internacionais no Brasil dá-se tamém pela excessiva carga de impostos que a produção do show tem que pagar (seja com transporte, aluguéis, etc....). Mas por mais que a tributação brasileira seja alta - e isso tem que mudar, até porque o incentivo governamental para as produções nacionais é pequeno -, o custo do ingresso é elevado demais para simplesmente se justificar por isso. Principalmente, porque o local, e consequentemente o público, onde foram realizados esses shows é bem grande para a produção ter um lucro gordo e satisfatório.

Além disso, tem o problema da distribuição e venda dos ingressos que tamém me revolta muito. A nova onda agora é a venda de ingressos pela internet, à qual se agrega uma chamada (erroneamente) "taxa de conveniência". Esse custo a mais seria bastante compreensível se de fato a conveniência que ele pretende cobrir existisse. Para o show do The Killers, por exemplo, paga-se a "taxa de conveniência" para retirar o ingresso na bilheteria do evento. Com mil caracóis, ou eu estou muito equivocado, ou não há "conveniência" alguma! Ou a "conveniência" é ter a facilidade de comprar o ingresso pela internet? Oras, se eu vou ter que retirar o ingresso na bilheteria (que não é no local onde vai acontecer o show), posso muito bem comprá-lo lá direto e não pagar mais nenhum adicional.

Mas se você é um dos que preza realmente pela conveniência de comprar pela internet, além dos 15 reais convencionais (mínimos, porque a taxa é percentual e cai sobre o preço do ingresso), você paga mais outros 15 para que entreguem na sua casa! Preço esse muito mais elevado do que uma entrega via Sedex. E vamos aos cálculos. Se 30mil (capacidade da Chácara do Jóquei) ingressos de preço mínimo fossem vendidos pela internet, adicionada a taxa de conveniência, a empresa responsável lucraria singelos 450mil reais. E venha agora você me dizer que esse é o custo da manutenção do site para a venda de ingressos, que eu lhe perguntarei se tenho cara de trouxa. Parece-me que a "conveniência" da taxa se refere à da empresa, e não à do consumidor.

Além desse há outros inconvenientes na venda de ingressos a serem elencados. Primeiro, a ridícula cota de máximo de 30% de meia entrada obrigatória prevista por lei. Só 30% do público do The Killers é estudante? É realmente justo que um evento a esse preço libere apenas 30% dos ingressos com abono de 50%? Particularmente acho que não. E essa é uma reinvindicação de retificação de lei que deve ser feita pelos estudantes o quanto antes. Em segundo lugar, essa palhaçada de compra pela internet. Há algo na compra de ingressos pela internet que me soa errado. Se por um ela é moderna, cômoda e mais simples, por outro é injusta, cara e falha. Quem acaba garantindo o seu ingresso (se o evento em questão for uma corrida de cavalos incluídos digitalmente como foi o da Madonna) é quem tem a melhor conexão, um cartão de crédito disponível e sorte. A falta de guichês espalhados pela cidade para a compra torna ainda mais obrigatório o sistema de compra pela internet, que, repito, parece ser conveniente apenas para a empresa distribuidora.

(É bom deixar registrado tamém, se me permitem um parágrafo-parênteses, que para a empresa que vende o ingresso o interessante é esgotá-lo. Portanto, pessoas como cambistas são lucrativamente interessantes. Por que haveriam essas empresas de impedir a venda de ingressos a cambistas, se o quanto mais elas vendem, mais conveniente é? Não interessa se vão assistir ao show ou não: o que é preciso é se livrar dos ingressos.)

Enfim, parece que tanto a produção do show quanto a empresa que vende os ingressos contribuem e se ajudam mutuamente nessa onda. E o quanto menos reclamamos, mais acomodadas elas ficam. Mas essa apatia é bastante natural ao nosso povo, não reprimo ninguém. Quem é, no final das contas, que vai ficar sem assistir ao seu artista predileto numa performance sem preço? O que vale é a emoção do momento. E quem puder pagar, que a sinta.

[Fonte: Revista Veja, dia 10 de agosto de 2009.]

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Segunda-feira, Agosto 10, 2009

"so this is how liberty dies: with thunderous applause." (Padmé Amidala)

GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO É de se elencar todas as grandes e magnânimas realizações da gestão demo-tucana no estado e município de São Paulo. Estou me referindo, naturalmente, ao atual governo de José Serra (PSDB - SP) e Gilberto Kassab (DEMo - SP). Prohibição da circulação de fretados no centro expandido, lei Cidade Limpa, Ponte Estaiada, lei antifumo, Rodoanel.

Essas realizações implicam em duas coisas: gastação de dinheiro com inutilidade e prohibições. Explico. Todas as leis citadas aqui são leis que negam alguma coisa: o fumo, a circulação de ônibus fretados, de propagandas em outdoors e outras mídias na cidade. Negar, ou prohibir, alguma coisa é não só simples como barato. Resolver o problema dos que não fumam foi simples, resolver o problema dos que sofrem com o trânsito por culpa dos fretados foi simples, resolver o problema dos que sofrem de cegueira por excesso de informação visual foi simples. E igualmente barato: custou para os cofres públicos o papel para assinar a lei e a tinta da caneta. Os fiscais, pagam-se com um salário mínimo: é mais fácil deixar tudo na mão dos dedo-duros (nova política fascista de fiscalização civil).

Quanto às obras inúteis, refiro-me às obras do metrô, ponte estaiada e rodoanel, são caras e não resolvem problema. Aparentemente, todo o dinheiro salvo nas leis que prohibem é usado em contruções faraônicas, que não vão resolver problema algum. Veja bem!, a modernização do metrô e da CPTM, sua expansão são saudáveis e necessárias, mas não são suficientes. O rodoanel, que nem completado está, já foi parcialmente vendido (dinheiro gasto pra encher o bolso dos terceirizadores) e a ponte estaiada é uma homenagem mais que merecida ao Roberto Marinho que liga duas áreas ricas da cidade, custando 184mi de reais. O dinheiro dessas obras viárias para construções poderia ser usado em empreitadas bem menos megalomaníacas, cujos resultados seriam bem mais benéficos aos cidadãos da cidade.

É curioso pensar que prohibições e obras gigantescas é o tipo de atitude conhecida de governos... igualmente conhecidos. Tudo isso - como sempre - alavancado pelo estrondoso apláuso da classe média, que faz eleger esses governantes. Acabamos sempre por preferir aos monomotorizados, que moram no Morumbi e no Brooklin. Aos infelizes que moram em S. Bernardo do Campo, que lhes sirvam os ômnibus lotados e as horas de espera em pontos longínquos e desimportantes.

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Domingo, Agosto 02, 2009

o coff-coff do meu pulmão marca a histeria da minha aversão

LEI ANTIFUMO Sem elencar agora com grande revolta as minhas indignações sobre a lei antifumo do governador Serra para o estado de São Paulo que entra em vigor nesse dia sete - e promete ser o assunto da semana -, vou me ater mais ao maior absurdo imposto: a prohibição do fumo no palco durante peças de teatro.

Só para começar, já faz muito tempo que não vejo cigarros em novelas e peças de teatro: antes mesmo da prohibição da vehiculação de propagandas televisivas de tabaco, diminuiu-se o uso do cigarro como recurso cênico televisivo ou teatral (apologias?). Particularmente acho muito improvável que um diretor jogue em cena um exército de personagens fumantes soltando baforadas plateia acima, plateia abaixo. E vamos cá combinar que um cigarrinho ou dois em cena (que foi isso o máximo que a minha experiência de teatro já viu) não vão causar aborto espontâneo, amputação, necrose, câncer de laringe, boca ou pulmão, tristeza ou sofrimento em ninguém.

Encaro essa prohibição como censura, até porque fumar é um hábito que existe na sociedade há muito tempo (queiram os mais radicais antitabagistas ou não) e tem, poranto, razão e direito de ser representado. Independente de opinões - desculpem-me o termo - tresloucadas como a do Zé Celso, "O teatro é um culto religioso, dionisíaco. Então, tá liberado!", ou de outras doutrinárias como a do Gerald Thomas, "É uma besteira esse teatro realista, que precisa (...) de um cigarro. O artista tem que transcender tudo.", o teatro é a arte do aqui-agora e se não dispõe de todos os elementos que necessita para se completar aqui-agora, falhará. Essa censura limita as possibilidades artísticas, logo deve ser veementemente combatida.

Se existem as tais ORIENTAÇÕES indicativas de idade para peças e o escambau do barulete, proponho, daí, já-que percebo a irredutibilidade dos não fumantes com essa lei, que se alerte o expectador sobre uso de cigarro durante a peça. Democraticamente quem se sentir incomodado tem o aviso prévio e não se surpreenderá com o assustador, pavoroso, assassino e satânico cigarro em cena.
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E a discussão não para por ahí. Acho engraçado as pessoas aplaudirem uma lei como essa que inviabiliza o direito do cidadão e do comerciante, sendo que todos os dias são bombardiadas com sabe-se lá quantas substâncias tóxicas emitidas por vehículos automotivos, indústrias e produtos nocivos aos tão caros e custosos pulmões da Pauliceia (ou os pulmões seriam justamente eles?). Por que não autorizar o comerciante a decidir se o fumo será ou não permitido em seu estabelecimento, desde-que haja um espaço onde esse seja permitido com regras e normas previstas em lei? Vejo muita passividade na aceitação de uma lei que restringe uma liberdade. O fumante optou pelo fumo. Se querem fazer dele um criminoso, que se prohiba o fumo de uma vez!

Permitam-me - só para acabar, que dessa vez fui além do meu limite normal de caracteres - fazer uma comparação provavelmente infeliz. Restringir aos poucos os direitos das empresas de cigarro e dos fumantes me lembra muito a restrição "lenta, gradual e segura" que o Império aplicou até a libertação total dos escravos. Começa-se com o Bill Alberdeen, passa pelo Ventre Livre, Sexagenários, até - enfim!, enfim! - a Lei Áurea. Se a intenção é acabar com a escravidão, corte-se o mal pela raiz. Se querem liquidar logo com os fumantes, torne ilegal a venda de cigarros! Uma lei simples como essa de âmbito nacional resolveria completamente a minha revolta e a revolta dos não fumantes. O curioso é que aparentemente o governo não quer que você, amável fumante, pare de fumar: a arrecadação de impostos com você é sobremaneira benquista. Abolida a escravidão, chega a hora de libertar os fumantes do vício. Ponho isso, naturalmente, sem a intenção de atingir as artes cênicas. Ou seria demais pedir ao Serra prohibir tamém os escravos nas novelinhas das 6 da Globo?

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Segunda-feira, Julho 27, 2009

cocoricó versão controversa

A FAZENDA Se "entretenimento" é a palavra que melhor define a função de um reality show, "qualidade" não é a melhor para definir A Fazenda, novo programa da Record. Para aqueles que estão acostumados a esse tipo de mídia, a emissora tem cometido alguns erros crassos, seja pela sua falta de experiência com o formato de programa, seja pela insistência que a Record tem em querer angariar Ibope a qualquer custo.

As falhas começam de dentro do próprio programa. As regras do jogo não estão claras para o expectador e podem mudar de semana para semana. Exemplifico: se em uma semana o Fazendeiro é escolhido pelo participante eliminado, na semana seguinte pode ser escolhido pela audiência, e saberá como se fará a da semana posterior. Além disso, a edição do programa é muito mal feita. Os microfones ficam todos abertos ao mesmo tempo e não se pode entender palavra do que os participantes estão discutindo, quiçá a matéria da discussão. Quando abrem-se as câmeras em algum horário inusitado (durante algum outro programa da emissora, ou durante as janelas na grade), a seleção do que passar ao vivo é igualmente mal pensada. Mostra-se qualquer coisa. Já me peguei assistindo aos participantes dormindo ou olhando para o teto durante muitos minutos.

Outro problema sério é a apresentação do Britto Júnior. A impressão que nos fica é a de que ele tenta se enturmar e fazer amizade com os participantes ao invés de manter uma postura neutra e distanciada, própria de um apresentador de competição. Seus comentários costumam ser tendenciosos, constrangedores e muitas vezes tentam inapropriadamente forçar e inventar situações, que vão trazer polêmica e audiência ao programa, e, portanto, chamar atenção do grande público. Britto parece ser mais um narrador do que um mediador do programa. O formato do reality show se baseia na visão que o expectador tem da competição, não na narração fantasiosa e crítica que o mediador tem dela.

Ainda assim, externamente ao programa, A Fazenda ainda tem outros problemas. A superexposição dos participantes eliminados e a falta de assunto que os circunda durante os outros programas da grade da Record. O participante eliminado vai até o Hoje Em Dia, em que apenas os apresentadores falam, enquanto o entrevistado fica prostrado na frente da câmera com cara de tacho e depois vai ao Geraldo Brasil, onde sua única função é ficar negociando envelopetas valendo dinheiro.

Uma coisa é certa: as falhas estruturais perdoam-se. É a primeira vez que a Record lança um produto como esse e é natural e compreensível que essas falhas ocorram. O que é necessário que se mude urgentemente é a parte do entretenimento que é muito falha. Se os diretores de programação da Record colherem os bons frutos da horta dA Fazenda, é provável que os maus a façam ter que plantar tudo novamente em outros moldes.

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